A Banalização da Maldade

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Outro dia escrevi aqui nesse mesmo espaço sobre Otto Adolf Eichmann, um austríaco de vida simples, sem grandes qualidades ou defeitos incomuns que viveu de 1906 a 1962. Mas quem era essa ‘persona’? Um dedicado operário de Hitler na Alemanha nazista. Sua tarefa: organizar o transporte de judeus rumo aos guetos e campos de extermínio das zonas ocupadas pelos alemães no leste Europeu.

Enquanto pôde, fez isso com extrema eficiência. Quinze anos após o fim da segunda guerra mundial, Eichmann, com então 56 anos, foi capturado pelo Serviço Secreto de Israel, em Buenos Aires e levado à julgamento em Jerusalém, onde foi condenado e enforcado por crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

A morte de Hitler e a consequente queda do nazismo não impediram que o entusiasmo de Eichmann na sua ‘digna função’ passasse despercebido pela história. Isso porque a filósofa Hannah Arendt (1906-1975), uma das mais influentes judias do século XX, nascida na Alemanha, mas que por motivos óbvios, emigrou para os EUA. Talvez por isso, conseguiu traduzir para a literatura o que se passava na mente daquele ‘eficiente’ militar nazista: seu objeto empírico foi a ‘banalidade do mal’.

Lembrei desse contexto triste por entender que o mal está sempre muito próximo das pessoas comuns. E foi observando a banalização da maldade que a filósofa Hannah Arendt concluiu que, entre outras coisas, o extermínio dos judeus na Europa não seria possível sem a participação complacente do próprio povo judeu. Traduzindo: o povo, principalmente a casta que não tem o poder de decisão, de alguma maneira sempre é complacente quando alguém propõe o seu sofrimento.

Como militar e gerente de logística, Eichmann jamais matou alguém, apesar da plena consciência do destino daqueles que enviava aos campos de extermínio. Ele era o meio, nunca o fim. Talvez tivesse convicção da maldade dos seus atos, mas não se importava com isso porque sua preocupação não estava relacionada à morte de crianças ou idosos, mas sim se o espaço nos vagões dos trens estava sendo ‘adequadamente’ preenchido, otimizado e deslocado no tempo e nas horas programadas para saídas e chegadas ao destino.

Hoje, o Brasil está cheio de Otto’s Eichmann’s. São militares, desembargadores, juízes, promotores e políticos dos mais diferentes partidos de todas as ideologias à serviço do sistema. Cumprirão suas ordens com diligência, ficarão em silêncio por defesa própria e sentirão orgulho pelos ‘bons serviços prestados à nação’. Cúmplices de tudo, nossos Eichmann’s, pagos com dinheiro público, farão o melhor para manterem seus salários, o conforto das suas famílias, suas garantias e seus privilégios sem se preocupar com quem está na linha de extermínio. A diferença – em relação à atividade de Eichmann – é que aqui, não há condenações, nem crimes lesa-humanidade. O tipo de execução é outro. Mais lento e gradual…

 

* * *

Antes, era a arcaica ponte móvel sobre o Guaíba. Daí uma nova ponte solucionou o entrave no acesso à capital pela BR-290. Essa semana o imbróglio foi alguns quilômetros mais adiante, na ponte sobre o Jacuí imbróglio entre Porto Alegre e Eldorado. Um acidente envolvendo três caminhões interrompeu totalmente o trânsito das 19h até a 1h30min manhã, no sentido capital-interior. No dia seguinte, a mesma coisa, porém com um tempo menor de espera. Na quarta-feira de manhã, na mesma ponte, um caminhão teve uma pane mecânica numa das pistas: nova tranqueira.

Falta de água, falta de luz, falta de internet, falta de sinal de telefonia celular. E agora, falta de mobilidade urbana em rodovias. Não está fácil ser gaúcho e brasileiro nos últimos dias…

 

Daniel Andriotti

Publicado em 26/1/24

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