Sistema Inválido

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Uma das maiores chagas institucionalizadas da era moderna, depois dos cambistas, é a dos flanelinhas, também conhecida como ‘guardadores de carros’. Quando alguma coisa afeta somente o meu interesse, eu costumo ficar calado. Mas quando ouço um grande número de pessoas reclamar da mesma situação…

Sábado pela manhã precisei estacionar o carro na rua São José. Dificilmente faço isso, mas consegui uma vaga rara considerando o dia e o horário de comércio pulsante. Embora seja controverso, não me incomodo de ter que pagar para utilizar uma área pública desde que esse pagamento não seja extorsivo nem burocrático. Fui até o parquímetro mais próximo, mas ele estava desligado. Caminhei até o outro e… não estava funcionando. Cheguei num terceiro, a mais de 150 metros de onde havia deixado o meu carro. O equipamento só aceita moedas. O fator insegurança me ensinou a não andar mais pelas ruas com dinheiro em ‘cash’, quanto mais moedas. O cartão de débito/crédito ou o “pix” facilitaram esse hábito e essa comodidade. Eu tinha duas opções: ir até o banco (a algumas quadras de onde eu estava) para sacar dinheiro em papel e posteriormente trocar por moedas em algum boteco; ou ‘baixar’ o aplicativo no meu celular sugerido pelo sistema, o Rek Pay.

Sento na calçada com o telefone na mão. Preencho o cadastro com algumas informações pessoais, cidade, placa do carro e… fico aguardando uma senha de validação que será enviada por SMS. Dois, três, quatro minutos. Chegou a senha. Volto no aplicativo. O tempo expirou. Tenho que começar tudo de novo. Do zero. Enquanto isso, a moça que faz o monitoramento dos veículos estacionados coloca um papelzinho no para-brisas do meu carro informando que já estou utilizando o tempo da tolerância o qual todos os veículos têm direito nos primeiros minutos. Vamos de novo. Nome, cidade, CPF e… aguardando a senha de validação. Tento colocar aquela primeira senha que chegou atrasada. Inválida. Nesse meio tempo, chega a segunda senha. Aplico. Os dados não conferem. Digite o número do seu telefone (de novo?!?!?!?). Sol de 40 graus na cabeça. E quem expirou, dessa vez, foi a minha paciência. Fui informado posteriormente que, além de créditos via transferência bancária, o sistema – agora – também aceita ‘pix’ de qualquer valor. Nem sempre foi assim: o valor mínimo inicial era de R$ 15,00. Como meu tempo médio de estacionamento no Centro de Guaíba é de 20 minutos por semana, eu levaria uns três anos para consumir. Mas infelizmente não consegui chegar na tela que contém essas ‘facilidades’. Enfim, aguardo ansiosamente pela chegada da multa. Confesso que senti saudades do flanelinha e sua intragável frase: “tá bem cuidado, doutor. Deixa um ‘cafezinho’ na volta!!!”

 

* * *

O futebol brasileiro caminha a passos largos para a bancarrota: ‘quebra, falência ou insolvência, acompanhada ou não de culpa ou fraude do devedor’, segundo o Aurélio. Hoje, com exceção de Flamengo, Galo e Palmeiras que, embora altamente endividados conseguem manter seus plantéis com alguns jogadores acima da média, o resto é várzea. Dentro e fora do campo.

O Grêmio ‘conseguiu’ a façanha de ser rebaixado com os cofres cheios. O Inter amarga um período de endividamento alto associado a contratações erradas e caras para um grupo sem qualidade, sem ânimo e sem comprometimento. O preço: resultados ruins, desclassificações, ausência de títulos, pressão por mudanças, revolta da torcida. Tudo isso gera… mais endividamento.

A dupla Gre-Nal, antes respeitada, hoje virou ‘case’ de chacota em qualquer roda de discussão sobre gestão de negócios. Se o futebol da dupla melhorar muito – o que acho pouco provável – ambos ficarão apenas ruins. E a bola pune e rebaixa.

 

Daniel Andriotti

Publicado em 11/3/22

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