Pichação e Chibata

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As duas tribos de seres urbanos que eu mais abomino são a dos flanelinhas e a dos pichadores. A primeira atividade, mesmo que seja um ato de extorsão, ilegal e antipático, vai lá que esteja colocando comida na mesa de alguém. Mas pichadores, na minha opinião, são vândalos irresponsáveis que se consideram rebeldes e que para ‘exercerem o seu ofício’ colocam a própria vida em risco. Objetivo: ganhar prestígio no seu mundinho onde orbitam parasitas que insistem em afetar a autoestima das cidades. O pichador e seu spray ousado protesta contra o sistema a partir de rabiscos feitos em muros ou paredes de casas e de prédios de alta visibilidade através de símbolos que somente seus integrantes compreendem. Quanto mais alto e mais difícil é o acesso, maior é a pontuação no ranking da estupidez. São abreviações de grafias próprias que funcionam como logotipos ou siglas empregadas para identificar o autor da obra. Uma pichação é essencialmente a assinatura de um grupo, a turma (da bolha). Pode conter o nome dela, a abreviação dos apelidos dos seus integrantes e dados como região e a data. Mas só eles compreendem isso.

Receberei alguns, talvez muitos, e-mails raivosos em que defensores da pichação (com ‘ch’) irão tentar me convencer que esse tipo de ‘intervenção urbana’ ou ‘expressão gráfica de elementos estéticos’ também pode ser considerado arte de rua pois, ‘não existe um limite claro entre o que é e o que deixa de ser arte’. Um papo meio Caetano Veloso. Em São Paulo, existe a pixação ou pixo (com ‘x’ mesmo), reconhecida por ter uma ‘dinâmica social estabelecida há 30 anos e um estilo de letra específico, o tag reto, de formas pontiagudas’. Tem até um livro cujo título é “Pichação não é Pixação”.

Outros me dirão que a pichação é por vezes considerada um protesto contra a desigualdade social vivida por jovens marginalizados da periferia como uma forma de dar voz a quem quase sempre não a tem. E não pára por aí: círculos artísticos nacionais e estrangeiros já reivindicam a legitimidade da pichação junto às galerias e faculdades de artes visuais. Respeito, mas discordo. Outro detalhe: jamais podemos (ou devemos) confundir grafite com pichação. A pichação é essencialmente agressiva e desprovida de conceitos artísticos. Pichadores escolhem, prioritariamente locais públicos, agem à noite e são vistos como uma forma de ataque e vandalismo ao patrimônio. Já o grafite é bem diferente: tem valor estético no mundo contemporâneo, valoriza o local e, como explicado na Lei, é autorizado quando há o consentimento do proprietário de um bem privado ou do órgão público.

No Brasil, pichador só ‘se cria’ porque acredita e confia na impunidade. Ele ignora que a sua insensatez seja considerada um crime ambiental. O artigo 65 da Lei 9.605/98 prevê pena de três meses a um ano de prisão, agravada se executada em prédios públicos e/ou tombados. No entanto, eles sabem que raros são os casos em que a detenção de pichadores é capaz de tirá-los das ruas. No máximo, acabam em ‘serviços comunitários’ cuja pena é uma cesta básica ou na melhor das hipóteses limpar, mal e ‘porcamente’, a própria sujeira que fizeram. E reincidem, reincidem, reincidem…

Para se proteger dos pichadores, alguns donos de casas ou de muros atacados pela tribo do spray nefasto já recorreram à própria natureza como um instinto de defesa: plantam espécies vegetais conhecidas como ‘trepadeiras’ e que se transformam em cortinas verdes imunes a esse tipo de vandalismo. Fabricantes de tintas também desenvolvem produtos antipoluição que, ajudam, mas não resolvem porque o objetivo do vândalo é testar, provocar e atacar, cada vez mais, os limites e a paciência da sociedade.

Fosse aqui aplicada a mesma pena que é em Cingapura para delitos dessa natureza, certamente teríamos cidades mais limpas. Lá, esse tipo de vandalismo é punido com prisão, mais multa em dinheiro e…. de três a oito chibatadas. Em praça pública, para a “expressão de arte” fazer exemplo.

 

Daniel Andriotti

daniel.andriotti67@gmail.com

Publicado em 27/8/21

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