Picanha e Habeas Corpus

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“Um povo que aceita passivamente a corrupção e os corruptos, não merece a liberdade. Merece a escravidão. Um país cujas leis são lenientes e beneficiam bandidos, não tem vocação para a liberdade. Seu povo é escravo por natureza”. Calma leitores: essa frase está entre aspas porque ela não é minha. É do italiano Nicolau Maquiavel, filósofo, historiador, poeta e diplomata, reconhecido como fundador do pensamento e da ciência política moderna, pelo fato de ter escrito sobre o Estado e o governo como realmente são; e não como deveriam ser. Detalhe: ele viveu de 1469 a 1527. Quando morreu, portanto, as caravelas com o staff de Pedro Álvares Cabral recém tinham chegado à Porto Seguro…

Várias gerações cresceram ouvindo o mantra de que “aqui, só pretos e pobres vão presos”; ou “no Brasil, a única coisa que dá cadeia é o não-pagamento de pensão alimentícia”. Quase vimos isso mudar: cidadãos poderosos, ricos, políticos, empresários e influentes foram encarcerados; e parte das verdadeiras fortunas desviadas dos cofres públicos, devolvida. O país, finalmente, encaminhava-se para se tornar um império da lei.

Mas tudo o que é bom dura pouco. Não demorou para que a moral da sociedade brasileira parasse de funcionar. Então, é claro que sim, aqui, o crime compensa. O sistema judiciário do Brasil foi desmontado para que alguns réus pudessem concorrer a cargos públicos. Processos, julgamentos e decisões de dezenas de magistrados foram simplesmente rasgados. Réus soltos, vamos ao que interessa: elegê-los aos principais cargos públicos do país, tal qual raposas para cuidar do galinheiro.

Condenado por 20 juízes em diferentes instâncias, Lula jamais se desculpou pela corrupção da era PT porque se manteve fiel ao “eu não sabia”. Seus eleitores, quando indagados sobre corrupção, respondem com os “51 apartamentos de Bolsonaro” ou com “as rachadinhas” e as “milícias” comandadas pela família. Ignoram ou minimizam a roubalheira. Lula foi preso e condenado. Seu oponente, nem uma coisa, nem outra. Pelo menos por enquanto…

O Nordeste – região carente e governada majoritariamente por partidos de esquerda desde a redemocratização – produz pouco mas vota muito.  Receita ideal para o clientelismo e a servidão. Toda pobreza jamais deixará de ser pobreza com um governo de esquerda, pois ali reside sua possibilidade de perpetuação no poder. Esse mesmo Nordeste concedeu ao PT um novo mandato. Só que dessa vez Lula assume ‘devendo muitos favores’: para o TSE, para o STF, para políticos de diferentes partidos, banqueiros, empresários e outros “democratas”. Isso vai custar caro à sociedade brasileira. Lula, aliou-se a pessoas que odeia (e que também o detestam), a começar pelo seu vice, eterno antagonista ao PT. Quem pensa que ao final de quatro anos Lula vai passar o bastão para Alckmin deve morar em outra galáxia. Até porque, daqui há quatro anos, Lula irá para a reeleição caso sua saúde permita. E dessa vez, sem a incômoda, hipócrita, cínica e inoportuna presença de Alckmin na chapa. Há pouco, Lula chamou para o seu lado Simone Tebet, uma oportunista descarada e cuja companheira de chapa o acusou de mandante de assassinato. Vale absolutamente tudo no jogo sujo da política partidária.

Nos debates, talvez sentindo o peso da idade, Lula não conseguiu fazer uso da sua implacável verve de sindicalista. Elegeu-se pela sua ‘persona’ que – verdade seja dita – é muito maior que o PT (tanto que, em 40 anos de política, Lula não formou nenhum líder para sucedê-lo). Cultos à lideranças e personalidades populistas costumam terminar em fracasso. Seja na esquerda, no centro, ou na direita. Ao contrário de Lula, Bolsonaro perdeu a eleição devido à sua ‘persona’. A política brasileira se resume a isso: “gosto” ou “não gosto” do candidato. Pouco importa o que ele pretende fazer e o legado que deixará.  E assim seguimos a passos largos nos tortuosos caminhos da polarização que emburrece.

Daniel Andriotti

Publicado em 20/1/22

Comentários 1

  1. sirleiblanc79@gmail.com says:

    A citação costuma ser atribuída a Maquiavel, mas não há fontes que confirmem essa autoria. Partes do pensamento podem ter sido inspirados nas obras “O príncipe” e “Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio”.

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