O Museu e a Igreja

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Aprendi sobre a Teoria de Charles Darwin nas aulas de Ciências; a respeito de Adão, o primeiro homem, e Eva, a primeira mulher, nos períodos de Religião e na religiosidade da própria família. E não me lembro de ter questionado meus professores ou minha Mãe, naqueles dias infantis, sobre a possibilidade da lição científica desmentir a crença religiosa e vice-versa.

Mas as crianças desse novo milênio são diferentes, têm maior conhecimento de tudo, raciocínio mais rápido e maior liberdade para questionar. Foi por conta disso que tivemos uma excelente aula de sensibilidade com nossa neta, quando ela tinha seis anos, sobre o conhecimento científico e a crença religiosa.

Domingo ensolarado de julho, visitamos o Museu da PUC, em Porto Alegre, toda a família. Para estreitar laços com as descobertas científicas que regem o mundo em que vivemos. Foi um passeio e tanto, aproveitamos muito, especialmente nossa neta. Na volta para casa, o assunto recorrente foi sobre o barco em que Charles Darwin fez sua primeira viagem de estudos, especialmente o desenho alusivo a nossa evolução como espécie, mostrando macacos que se locomoviam curvados até se erguerem completamente, com o passar do tempo, transformando-se nos primeiros humanos. Nossa pequena estudante ficou impressionada.

Para refrescarmos a memória, Charles Darwin (1809 – 1882) foi um garoto inglês encantado com a Natureza. Mandado pelo pai para a faculdade de Medicina, não aguentou as aulas de anatomia; na segunda tentativa, no curso de Teologia, também falhou. Um professor notou o interesse do jovem pelos assuntos da Natureza e o indicou ao capitão de uma expedição que ficaria cinco anos mapeando mares. Precisavam de um naturalista para coletar informações sobre plantas e animais, Darwin aceitou o desafio e as descobertas que fez no Arquipélago de Galápagos transformaram o conhecimento científico do mundo. Teve início, então, a sua teoria sobre a evolução das espécies. Ele concluiu, tempos depois, que a seleção natural se dá pela sobrevivência dos que melhor se adaptam às mudanças ambientais. E as espécies vão se modificando até a extinção.

Charles Darwin morreu aos 73 anos. E, apesar de contrariar o pensamento religioso daqueles tempos, foi sepultado na Abadia de Westminster, em Londres, a belíssima igreja onde os reis são coroados.

Tudo isso posto, voltemos ao tema central desta escrita, a conversa que tivemos, eu e a pequena Isabela.

Estávamos na cozinha, eu preparando o lanche e ela fazendo os temas. De repente, a pequena estudante pediu que eu prestasse atenção e começou a andar com a cabeça quase na cintura, braços soltos balançando ao lado do corpo; sem parar, foi se erguendo aos poucos até ficar ereta. E me perguntou:

– Afinal, quem foi o primeiro homem e a primeira mulher, o Adão e a Eva ou os dois primeiros macacos a andarem direito, como estava desenhado no barco do Darwin? Qual é a verdade?

Pensei um pouco, procurando resposta adequada que não desmentisse a Ciência tampouco a Religião. Expliquei que os macacos eretos fazem parte do conhecimento científico, então o que Darwin disse é considerado verdade. Adão e Eva são personagens da crença religiosa, o que funciona como uma lenda: para alguns é verdade; para outros, não.

Nossa neta de seis anos me olhou e, por um instante, ficou pensativa. Eis que, parecendo ter compreendido a minha dificuldade, me ajudou com uma explicação muito melhor, livrando-me do constrangimento com sensibilidade e inteligência:

– Eu já entendi, os dois são verdade. Os primeiros macacos do Darwin, um se chamava Adão e o outro era a Eva.

E a vida seguiu seu curso, conciliando o Museu e a Igreja.

Cristina André

Publicado em 28/6/24

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