Feitio de um Sorriso

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Ouvi, certa vez, numa conversa filosófica em família, que é grande equívoco colocar em outras pessoas a responsabilidade pela nossa felicidade. Sentir-se feliz é um estado de espírito que depende exclusivamente de nós, de ninguém mais, sentenciou um primo de reconhecido saber.

Tempos diferentes, aqueles que vivi, uma época que talvez tenha se perdido, quando era costume ouvir os mais velhos, em silêncio, falando do cotidiano, dando conselhos e argumentando com fatos testemunhados.

Aprendia-se a refletir sobre a vida adulta através das histórias verídicas que nos contavam, de gente que se desviara dos trilhos e perdera o rumo; e de outros que, cientes das pedras que havia no caminho, enfrentaram e venceram.

Na página primeira de um caderno especial que comprei para registrar pensamentos de escritores famosos, observações inteligentes de gente comum e antigos ditados populares, escrevi em destaque a frase do primo que me deixara embasbacada e pensativa, sobre a felicidade ser responsabilidade individual.

Daquele período de bonitas encadernações, dos provérbios escritos a caneta esferográfica, de papéis de carta decorados e bombons beijo-de-moça, ficaram delicadas crenças, lições para toda a vida, especialmente aquela que ensinava a ser feliz.

Muito tempo se passou desde aqueles dias, chegou um novo milênio, com seus avatares e suas virtualidades. E uma pesquisa científica sobre felicidade foi anunciada, com gráfico em forma de sorriso, vejam só. Nela, seu mentor, o economista belga Bert van Landeghem, afirmou que os períodos mais felizes da vida acontecem até os vinte e cinco anos e depois dos sessenta e cinco.

No intervalo entre 25 e 65 anos, segundo ele, as preocupações com emprego, casa própria, filhos e futuro tomam conta do cotidiano. E quando toda essa ansiedade começa a dar lugar à satisfação e à tranquilidade, o caminho que leva à felicidade é retomado.

As definições do economista servem para quem aceita a vida como ela é e se prepara para o tempo da maturidade, aos que se recusam a cair na armadilha de promessas sobre o retorno à juventude, porque isso não acontecerá. É para quem valoriza a jornada com suas diferentes etapas, suas perdas e seus ganhos.

Lembro com frequência das boas conversas em família de que pude desfrutar, quando os mais velhos nos mostravam o mundo por meio de histórias, com seus ditados e suas frases inteligentes. Como a sentença daquele primo sobre o equívoco de colocar em outras pessoas a tarefa da nossa felicidade.

Sentir-se feliz é um estado de espírito que depende exclusivamente de nós, de ninguém mais, sentenciou. E o seu gráfico, de acordo com o belga Bert van Landeghem, tem o feitio de um sorriso.

Cristina André

cristina.andre.gazeta@gmail.com

Publicado em 19/5/23

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