E-golpe: o retorno

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Outro dia escrevi nesse mesmo espaço que “quando um esperto acorda no Brasil, já tem cinco otários na rua, trabalhando por ele”. Atualizando: hoje já não são mais cinco. São quinhentos. Outra: “A todo momento, um esperto e um otário saem de casa. Em algum momento do dia, eles vão se encontrar…”

Uma pauta que nunca sai dos noticiários é a dos pequenos (alguns nem tão pequenos assim) golpes populares. Apesar de extensa divulgação pela mídia e pelas conversas de botequim, o do bilhete premiado continua sendo o preferido e praticado com grande sucesso em pleno século XXI.

Com a pandemia vieram as situações de quarentena e de distanciamento social. Isso significa que os brasileiros espertos deram um tempo? Lógico que não. É na hora da angústia e do desespero que o poder da trapaça no Brasil ganha ainda mais força. Me refiro ao “e-golpe” via e-commerce (transações comerciais por meio digital). Para quem gosta de estatísticas, os golpistas aumentaram sua atuação em 74% nos últimos meses só no Rio Grande do Sul. Estamos falando de mais de mais de 5 mil registros por mês (fora os que não são registrados) ou, um e-golpe contra gaúchos a cada 11 minutos.

Seja qual for o tipo de cilada o teatro é fundamental. Ainda que à distância. Para tanto, os golpistas exercem cada vez mais seus poderes de persuasão. O enganado, muitas vezes, até ‘sente um cheiro do golpe’ mas prefere ignorá-lo muitas vezes movido pela angústia de poder ajudar um amigo ou familiar. Por exemplo: quando o seu número de WhatsApp é clonado e toda sua rede de contatos passa a ser extorquida com pedidos de… dinheiro, é lógico.

Mas como isso acontece com toda tecnologia de ponta a serviço da segurança da informação? Vamos lá: você comprou ou tentou vender alguma coisa pela internet. Esse é o caminho: de uma dessas operações – e de alguma forma – é que o criminoso vai se valer para ter acesso ao seu número de telefone e estruturar o argumento para a aplicação do golpe. Então, ele vai ligar se passando por alguém do site de vendas que você utilizou ou da sua operadora de cartão de crédito (caso a sua compra tenha sido nessa modalidade). Na ligação, ele (ou ela) educadamente irá lhe informar que sua conta no site de compras ou de vendas foi bloqueada por tentativa de fraude. E por isso, você estará recebendo um código enviado por mensagem e tudo o que você tem a fazer para reestabelecer a sua conta é repetir ao “solícito e simpático atendente” os dígitos que foram enviados na referida mensagem. Pronto. Foi a vaca com a corda. A partir desse momento o seu número de WhatsApp – além de seu – pertence a toda a torcida do Flamengo…

Imediatamente boa parte da sua rede de contatos passa a receber um pedido que, quem está lendo jura que você está precisando de ajuda via transferência de uma quantia em dinheiro para o pagamento de uma determinada conta, pois ‘uma vez que já pagou contas anteriores, extrapolou o seu limite para aquele dia’. “Ainda hoje eu te devolvo” é a desculpa-padrão. E muitos dos seus contatos, caem como patinhos. Pelos registros policiais, o valor médio ‘solicitado’ é de R$ 850,00. Então, imagine alguém que, como eu, tenha cerca de 600 pessoas cadastradas no telefone. Se 10% (estou sendo pessimista) dos meus contatos resolverem me ajudar com a transferência solicitada, os criminosos terão – em poucos minutos – R$ 51 mil reais limpinhos na sua conta. Dinheiro captado por uma história fantasiosa e entregue de forma consciente a quem de fato não merece. E eu, evidentemente, terei que devolver essa quantia a esses amigos…

Se conselho resolvesse ele seria vendido. Mas não custa avisar seus contatos sobre esse tipo de crime. A maldade humana, definitivamente, não tem limites. E ainda tem o golpe dos nudes… mas essa é uma outra história. Mais delicada…

Daniel Andriotti

daniel.andriotti67@gmail.com

Publicado em 10/6/22

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