Dezenove Anos Depois

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Revendo alguns escritos meus, eis que encontro uma coluna que, não tivesse sido publicada neste espaço em fevereiro de 2003, há 19 anos, poderia muito bem ter sido adaptada para uma edição atual. Bastaria trocar os nomes dos duelistas e as nacionalidades dos povos.

Fiquei tão surpresa com o teor, que fiz questão de mostrá-la aos leitores, àqueles que um dia leram e aos que o farão pela vez primeira.

Sobrevivendo    

Uma tristeza profunda está se alastrando pelo mundo, tomando os corações daqueles que ainda acreditam no respeito à vida. As notícias que anunciaram, nos últimos dias, a iminência de uma nova guerra foram como bombas de efeito moral, cuja radiação, silenciosa e indolor, está alcançando todo o Planeta.

O assustador duelo entre Bush e Sadam, prestes a ser praticado, deixou não só norte-americanos e iraquianos temendo pelas vidas dos seus, mas toda a população pensante desta confusa aldeia global. De um lado, a prepotência ferida; de outro, uma ditadura sem escrúpulos. Ambos nutridos por um ódio descabido – comandantes enlouquecidos. E é por conta deles que esta talvez seja uma guerra sem esperança de paz. Quem sobreviverá à fúria de armas atômicas e biológicas ninguém sequer imagina. Sabe-se apenas que não haverá vencedores. Seremos todos perdedores deste conflito anunciado.

Nada é mais melancólico do que o anúncio de uma guerra; é a Humanidade em sua pior performance.

Durante a semana, participei de um jantar festivo, com show de Dante Ramon Ledesma. Os presentes, em certo momento, se emocionaram mais do que o costumeiro. Acompanhando a beleza das canções latino-americanas, o recado politicamente correto do músico, contrário à guerra, fechou os sorrisos mais abertos, calou conversas animadas, marejou olhares. E os aplausos vieram depois da bela composição de Victor Heredia, traduzida pelo próprio Dante, intitulada “Sobrevivendo”.

Com as palavras do poeta, dividimos, naquele momento, os nossos temores pela guerra, a nossa impotente cidadania que nada mais nos permite fazer a não ser esperar pelos acontecimentos.

“Me perguntaram como eu vivia, me perguntaram.

Sobrevivendo, eu disse. Sobrevivendo.

Tenho um poema escrito mais de mil vezes, nele eu repito sempre que enquanto alguém propõe a morte sobre esta terra, e alguém fabrique armas e financie a guerra, eu cruzarei os campos, sobrevivendo.

Sobrevivendo, sobrevivendo…

Eu não quero ser mais um sobrevivente, eu quero escolher o dia da minha morte. Tenho a carne jovem, vermelho o sangue, a dentadura boa e o esperma urgente. Quero outra vida para minha semente.

Não quero ver um dia manifestarem-se pela paz deste mundo os animais. Que loucura seria o dia, a fauna manifestando-se pela vida. E nós, inteligentes, sobrevivendo.

Sobrevivendo, sobrevivendo…”

 

 

Cristina André

cristina.andre.gazeta@gmail.com

Publicado em 11/3/22

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