Crônica Gauchesca

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Tarde mais calma do que água de poço, coxilha verdinha, milonga tocando no rádio. A chinoca vestiu o pala, se resguardando do minuano que soprava pampa afora, e se pôs a pensar na sua querência, nas quadrilhas que dançava, nas pitangueiras e na restinga, na sanga perto da casa paterna. Estava solita, chuleando a chegada de gente andarenga para prosear sobre a vida; para animar aquele bolicho, que andava mais devagarzito do que enterro de viúva rica.

Tunda atrás de tunda das agulhas do tricô na feitura do xale, lembrava do tempo que já fazia sem ver seu bem querer, um bagual pra lá de bem quisto por aquelas bandas, mais conhecido do que parteira de campanha. Ele partira, logo depois da carreira de domingo, para negociar em outras estâncias, carreta cheia de colheitas. Que Deus lhe ajudasse, pensou, para que nenhuma sirigaita ele encontrasse pela estrada, que só tivesse olhos para os candeeiros dos amigos.

A vida solita estava mais difícil do que nadar de poncho, mais sofrida do que joelho de freira em semana santa. Sentada debaixo do grande umbu, para se distrair da saudade que sentia, da dor da lonjura que latejava feito canga a lhe envolver o pescoço, se embrenhou nas lembranças do passado, nos causos contados sobre entreveros ocorridos lá para os lados da fazenda Boi Barroso.

Houve um dia em que dois castelhanos, disputando um pangaré no carteado, se viram embretados pela chegada, de relancina, de uma boiguaçu. E não era uma qualquer; aquela era mais feia do que indigestão de torresmo, metia medo. Um deles, o que segurava a cuia de chimarrão, mais assustado do que paraguaio baleado, deu um berro e caiu para trás; o outro, sabendo que de nada adiantaria espirrar na farofa, foi se aprochegando de mansinho, pela rebarba do bicho, deixou a mão firme feito prego em polenta e tascou um manotaço, dando um fim ao malevo que se arrastava.

Teve até churrascada para festejar a guasqueada no medo, convidaram lindeiros e gaiteiros. A história ficou famosa, e o castelhano, faceiro que nem guri de bombacha nova.

A prenda saudosa, seguindo pelos bretes da sua cachola, oigalê, se pôs a lembrar da chegada daquelas ciganas, na manhã que pensara olada. Depois de cuidar das mamonas, de alimentar graxains, colher ovos e bergamotas, eis que, pela estrada de barro vermelho, uma carroça das boas se apresentou na frente do bolicho. Foi dela que desembarcaram três ciganas com jeito de caborteiras, uma delas meio matungona, por demais enfeitada com panos e outros apetrechos dourados. Diziam-se arrumadeiras de tachos de cobre.

A notícia deixou a prenda feliz, uma faceirice tomou conta dela, maior do que a do ganso novo em taipa de açude, do que mosca em tampa de xarope. Poderia, para esperar seu índio valoroso, fazer o doce de abóbora, a goiabada e a marmelada, a chimia de uva. Entregou de pronto o tacho da sua estima com a promessa de que lhe trariam consertado no amanhecer do outro dia. Mas por duas vezes o sol já havia nascido detrás do cerro e nada das ciganas. Fora mesmo clavada pela cruzada que tão bem recebera, sem nenhuma grossura. E a pealada entristeceu a pobre mulher, deixou-lhe abatida feito um guacho.

Contudo, a vida não dá ponto sem nó. No terceiro dia, olhando para a estrada, mais acabrunhada do que barata de ponta-cabeça, ela avistou o patrão do seu CTG, o gaúcho que laçara seu coração finalmente voltava, chegava montado no haragano, troteando em direção a casa. Nos arreios, balançando, o tacho de fazer doces que fora da vó e da mãe. Lau sus cri, gritou, contente feito pica-pau em tronqueira.

Outra tarde chegara, mais tranquila que lambari na sanga. A coxilha, verdinha; e uma milonga tocando baixinho no rádio. A vida no rincão voltara a ser feliz como antes, o amor dera um coice certeiro na tristeza. A felicidade provocou uma verdadeira revolução.

Cristina André

cristina.andre.gazeta@gmail.com

Publicado em 15/9/23

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