Chevette a Álcool no Inverno

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Há 15 dias, um jogo entre Internacional e Corinthians no Beira Rio chamou a atenção daqueles brasileiros que não gostam de futebol. Isso porque um atleta corintiano, de nacionalidade portuguesa, teria ofendido um colega colorado dentro de campo com uma acusação pejorativa que induz à injúria racial. Segundo Edenilson, do Inter; o lateral Rafael Ramos, do Corinthians; o chamou de ‘macaco’ num lance durante o segundo tempo do jogo. O acusado negou, mas foi preso e liberado logo em seguida mediante o pagamento de uma fiança. Vai responder em liberdade. O árbitro do jogo colocou em súmula. As diversas câmeras que auxiliam o VAR não mostraram uma clarividência na leitura labial e o Corinthians divulgou uma nota oficial repudiando toda e qualquer forma de racismo. Ao que se sabe, tudo vai ficar como um ‘mal-entendido’… (!!!)

Os casos de racismo no Brasil e no mundo pioraram? Acredito que não. Eles só passaram a ser divulgados. Os anos 90 escancararam episódios de racismo nos Estados Unidos e tornaram-se parte do cotidiano da cobertura jornalística. Com a tecnologia de fácil acesso e a proliferação das redes sociais, essa violência passou a ser gravada e vista por um público negro muito maior do que somente aqueles que moram nas comunidades onde os casos acontecem. E isso aciona a chave da indignação. O que estamos vendo na escalada desses últimos anos é que a violência nunca parou. Por isso, os protestos em países como os EUA são tão violentos. Importante lembrar que, com a abolição, a política escravista norte-americana foi transformada em política de segregação racial. Isso significa que em muitos estados, os negros eram proibidos de estudar em determinadas escolas, a votar nas eleições e a frequentar bairros tidos como ‘locais de brancos’.

Apesar de ser crime – Lei 7.716/1989, elaborada para regulamentar a punição de atos de preconceito de raça ou de cor –  o Brasil nunca teve uma política explícita de segregação racial. No entanto, a desigualdade é bem demarcada etnicamente quando se olha para os números. Negros compõem a maioria da população brasileira (54%) para o IBGE, numa categoria que reúne pretos e pardos. Entretanto, homens negros têm expectativa de vida até 4,6 anos menor que a de homens brancos. Sem falar nas restrições do mercado de trabalho, na inferioridade salarial, na maioria da massa carcerária, nas condições desiguais de moradia, entre outras desigualdades. Embora racismo seja crime no Brasil, atos racistas ainda não são percebidos com clareza pela população. E por que nos EUA a coisa é diferente? Porque a revolta norte-americana tem injeção eletrônica. A brasileira parece um Chevette a álcool no inverno gaúcho: precisa daquele empurrãozinho para pegar no tranco…

 

* * *

Já que citei o Inter no primeiro parágrafo, vou encerrar esse texto falando dele: essa semana, como se não bastasse o desempenho pífio dentro das quatro linhas, o colorado pagou mico nacional. Motivo? Questões envolvendo uma espécie de ‘motim’ ou greve por conta de um atraso no pagamento do uso de imagem de alguns jogadores. Em muitos casos, a maior parte dos rendimentos de um atleta vem dessa fonte, cujos valores e regras são livremente negociadas entre as partes.

Estrago feito, alguns torcedores que vivem numa bolha de ingenuidade já deram início a uma teoria da conspiração dizendo que ‘isso explica a baixa performance dos jogadores em campo e os consequentes resultados medíocres’. Eu, respeitosamente, discordo. A abstinência de vitórias e de boas atuações são frutos única e exclusivamente da falta de qualidade do grupo de jogadores. Ruindade técnica e tática. Se a chiadeira é por três meses de atrasos nos pagamentos, por que então há quatro meses atrás – quando, em tese os pagamentos estavam em dia – o Inter se mantinha tão ruim ou pior do que hoje???

 

Daniel Andriotti

Publicado em 03/6/22

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